19.5.12

exposição | exhibition - sculpture factory RELOADED


MENSAGEM II
com texto de Fernando Pessoa, livro do Desassossego, cap.I
| Message II
with text from Fernando Pessoa
Pedra mármore e pano | marble stone and cloth
150x100cm (peça de parede)
600,00€
PEÇA EXPOSTA NA sculpture factory de Maio a Outubro de 2012






Tapeçaria, escultura, livro?
O excerto do texto de Fernando Pessoa está distribuído por 16 pequenas placas de pedra. Cada uma deve ser retirada da bolsa, lida e guardada novamente. Há uma impossibilidade de perceber o todo. Frustração?
  Painel de pano seguro por varão de madeira. A moldura de pano preto rodeia a área creme e macia. Na "manta" foram abertas bolsas onde se guardam 16 pequenas placas de pedra (5x30x1cm) ao longo das quais se pode ler o seguinte: "Sabemos bem que toda a obra tem de ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda.
E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem da tarde." 
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa 

Cada placa tem a porção de palavras que lhe coube e a leitura deve ser feita da esquerda para a direita e de cima para baixo (as placas estão numeradas).
O leitor retira a primeira placa da bolsa, lê e volta a coloca-la no lugar. Fará este movimento sequencialmente, a não ser que tenha de voltar atrás por se ter esquecido do que leu anteriormente.
As palavras estão guardadas, nunca há a percepção do todo, e porque a leitura é interrompida cada vez que se muda de pedra (placa), o esforço de memória é grande e quase sempre termina na frustração do esquecimento e na impossibilidade de juntar todas as partes. Por isso "Mensagem II" não é um livro, não é uma escultura, pintura ou instalação. É uma SITUAÇÃO (imperfeita). 






 

28.4.12

RAIZES



Aprendo a gostar de envelhecer, como aprendi a gostar de ervilhas, favas e feijão. É o sabor doce e farto que sacia e se queda na digestão lenta, num parar enfartado mas satisfeito.
Sinto alívio porque já passei, e orgulho em cada ruga e cabelo branco, dos olhos sublinhados pela cor cinza de um descanso jamais alcançado.
Vou a meio. Já sem o medo de falhar, sem a pretensão de ser ouvida, de ser um nome, de ter estatuto. Sinto-me um niquinho acima, perdoem-me, dos que não vivem neste lugar, não fazem escultura, não desenham, e não se rodeiam desta beleza tão imperfeita que é a família.

17.4.12

ARTE DA VIDA | LIFE IS ART


Experimental é tudo o que já alguém conseguiu chamar ao meu trabalho. Há de facto um flutuar ao lado das áreas nobres, escultura, pintura, cinema… Não me dedico, não toco, não tenho um estilo. Artista? Naaa! Não tenho o saber nem a habilidade que a definem, prefiro a EXPRESSÃO, ou seja, a ideia, o gesto, o carácter, a animação, a essência de um sentimento (def).
Um dia ao mostrar o trabalho a um galerista, ele disse “O seu trabalho não tem ponta por onde se lhe pegue!”. Hoje provavelmente continua a não ter, porque nunca encontrei um estilo mas encontrei a minha linguagem.

Estilo: características (def).
Linguagem: sinais que servem a expressão do pensar e do sentir (def).

14.4.12

PERTENÇO.NÃO PERTENÇO.


Para ti, que não me vês nem lês, escrevo. Envolta em lençóis quentes, já não te espero mas continuo a mostrar-te toda a beleza que alcanço da minha janela. Ninguém me ouvirá. Estou a salvo.
Vai ser uma conversa sem princípio, conclusão ou fio condutor porque também é assim que a vida me acontece.
Tudo se mistura e toco (sussurro) as várias expressões artísticas que estão ao meu alcance, sem de facto lhes pertencer (Mulher sombra).
 “Pertenço porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado”.
Fernando Pessoa

16.9.11

MULHER SOMBRA PROCURA LOURDES CASTRO

MULHER SOMBRA I | Shadow woman | pedra mármore e feltro |
marble stone and felt| 60x125x185cm |

 
Era uma vez uma Mulher que vivia numa ilha. O seu mundo não ultrapassava o pequeno bosque que lhe pertencia e aos oitenta anos continuava a sorrir, mesmo quando chorava. Os olhos azuis iluminavam-lhe todo o rosto, penetráveis como água, pontos coloridos e luminosos. Na calma e bem-estar da casa, a solidão acompanhava-a como a sua sombra. A ausência do seu homem era tão física como a sua presença. Não havia filhos. Os álbuns de família eram a recolha de uma vida de sombras. Saberão alguns que a mulher é Lourdes Castro[1] e o homem Manuel Zimbro[2].
A outra Mulher, de quem fala esta história, é atraída pelo mesmo isolamento. Sabe-o fora dos limites da sua povoada existência. Secaria pela raiz se não pudesse dar o beijo aos filhos adormecidos no conforto que lhes proporcionou, aconchega-los, zelar pela tranquilidade da noite. Alimenta-os, lava-os, veste-os, educa-os e pouco lhe sobra. Que importa?
Está nos antípodas da coragem, da independência, dos seres solitários que admira. Pessoas detentoras do seu tempo e da sua vontade, duas coisas que a Mulher tem em porções suficientes para avançar muito lentamente. Não tem onde chegar e a sensibilidade e a intuição, continuarão a leva-la para o desconhecido. Tem sempre medo, mas vai. Será isto ser artista?

11.8.11

"PORQUE EU SOU DO TAMANHO DO QUE VEJO"



O dia amanhecera com chuva e frio. A Mulher tomou um banho quente, levou o pequeno-almoço ao filho, deu-lhe a roupa preparada no dia anterior e depois de colocados todos os acessórios, saíram.
Debaixo de um céu cinza, entrou na cidade. Tem minutos nas mãos e caminha no sentido oposto ao lugar onde deve estar às nove horas. As montras têm roupas bonitas e os edifícios seculares deixam adivinhar conforto.
Mas à mudança da paisagem reage com tristeza e medo. Sente o desconforto do costume, longe do lugar onde o espaço se vê e sente, onde se ouvem os grilos, e as árvores falam com o vento.
À entrada da cidade, apesar de continuar a chover, desenhou-se um arco-íris. Foi como se as cores ténues lhe pusessem a mão no ombro.
Está de passagem. Nasceu no edifício defronte, mas pátria se a tem, é no terraço à beira do pinhal, na encosta do monte. Por lá se queda, contrariando qualquer possibilidade de estar no contexto urbanístico e contemporâneo, o do fresco espírito da inovação. Aos trinta anos aproximou-se do mar e do campo, para fora do ruído de máquinas e homens e dos grandes blocos contentores/bloqueadores do olhar e do espaço. Desconhece a urbe que a viu nascer.

30.7.11

A CAMINHO DO BICHINHO DE CONTO

CADERNO DE ESBOÇOS III | sketch book

O enevoado do dia não levantou, mas na tarde da Picanceira o sol deixava-se ver. As crianças tomaram banho na piscina já muito furada, mas ainda assim água em quantidade para pulos mergulhos e gritaria. Comeram o reclamado lanche, embora ligeiro porque o jantar seria cedo. Separava-nos dos Casais Brancos uma hora de caminho e os filmes eram pequenos, como os sete cabritinhos. Se nos atrasássemos chegaríamos no fim. Mas as horas foram as certas e apesar do frio, da distância e da complicada gestão da tarde, à noite caminhámos sem hesitar para o Bichinho de conto
O nosso velho carro subia com esforço as estreitas e sinuosas ruas, ainda mais escuras depois da iluminação de Óbidos. Atrás, talvez impacientes caminhavam outras famílias. Todos curiosos e sequiosos de lugares nobres, onde poderíamos encontrar a nossa civilização. Afinal havia mais como nós. Apesar de um pouco perdidos, não nos sentíamos sozinhos.
Perdoem-me a metáfora já muito usada, mas descobri que alguns dos caminhos que tantas vezes percorro, vão dar à Escola Primária de Casais Brancos, transformada em lugar belo, belo, acolhedor, simples, isolado, despretensioso... tantas expressões e tantos despertares de sentidos, que fico confusa e pela segunda vez, queria ficar. Mas parti, como sempre faz a Mulher Sombra